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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Esquemas de colarinho branco têm mais infiltração no poder público



Em comparação com máfias ou grupos ligados ao tráfico, as que agem nos governos são as que mais preocupam PF
23 de dezembro de 2012
O Estado de S.Paulo
A doutrina da Polícia Federal prepara seus agentes para o combate a três classes do crime organizado. A primeira é a organização de matriz mafiosa, como a dos contraventores que exploram o jogo do bicho no Rio. "Tem o capo e várias pessoas que se unem para cometimento de crimes", analisa o delegado Oslain Santana. "A organização se infiltra nos poderes do Estado. Investe muito mais em corrupção do que propriamente em violência para se manter no poder. Veja o exemplo do Carlinhos Cachoeira. Começou com jogo do bicho e foi se infiltrando no Estado."
A segunda classificação é relativa aos "grupos agressivos", que adotam ações armadas. Como as facções que atuam no Rio e em São Paulo. "Esses têm poder econômico reduzido, comparativamente às demais quadrilhas, e a infiltração no setor público não é tão enraizada."
A terceira classe é a que mais preocupa o delegado da PF pelo seu poderio e raio de atuação. "São as organizações do colarinho branco ou das elites, pessoas acima de qualquer suspeita, mas que movimentam grandes esquemas. São as mais perniciosas do ponto de vista da Polícia Federal. Desviam bilhões dos cofres públicos para benefício pessoal. Tiram dinheiro da educação e da saúde por meio de violações constantes ao Decreto Lei 201/67 (crimes de prefeitos) e à Lei de Licitações."
Na avaliação de Oslain Santana, essa ramificação do crime organizado tem uma linha de ação diversa das demais. "Às vezes, até usa um pouco da violência, até queima um arquivo, mas prefere corromper ou contratar uma defesa muito boa. Ela é estruturada. Causa prejuízo muito maior para a sociedade."
A ousadia do colarinho branco impressiona o veterano policial. "O mercado de cocaína no Brasil gira em torno de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões por ano. Uma única fraude dessas às vezes tem valor muito maior que todo o tráfico de drogas no País."
"São crimes de lesa pátria a corrupção, a sonegação fiscal, os empréstimos fraudulentos que tiram dinheiro de bancos públicos para interesse de poucos", afirma Oslain. "Lesa pátria porque tira dinheiro de toda a coletividade, daquelas pessoas principalmente menos favorecidas que recolhem tributos e não têm uma contraprestação do Estado com relação à segurança, à saúde, ao provimento de Justiça."
O delegado disse que a meta maior da PF é descapitalizar as organizações do crime. "Se eu tiro o dinheiro daquela organização, eu tiro o seu poder. Esse é o segredo, sequestrar os bens ilícitos, tirar a motivação do crime e reverter esse dinheiro para o Estado aplicar na saúde, na educação e na segurança."
Operações. Oslain informa que em 2012 a PF desencadeou 19 operações especiais sobre desvios de recursos públicos. Foram presos 128 investigados, entre secretários de Estado, prefeitos e servidores públicos, e cumpridos 63 mandados de condução coercitiva e 340 de busca e apreensão. Os valores desses contratos sob suspeita chegam a R$ 585 milhões.
Na região de Montes Claros, no norte de Minas, a PF identificou fraudes em negócios da administração que somavam cerca de R$ 150 milhões. "As provas são robustas. Raramente falha uma operação dessa natureza, com prisão de prefeitos e secretários, porque é muito difícil que sejam inocentados na Justiça. As provas são colhidas sempre com autorização judicial."
Outra operação significativa, segundo o delegado, ocorreu na cidade de Presidente Keenedy, Espírito Santo. Um município rico porque recebe altos valores dos royalties do petróleo. "Houve um desvio muito grande ali. Foram R$ 56 milhões de prejuízo. Prendemos 28 e cumprimos 51 mandados de busca e apreensão." / F.M.

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